0
Far Cry 4: deuses e dem?nios
Por Leonardo Teixeira às 12:27h - 23/12/14

Introdução

Não foi nem segundos depois de apertado o botão para iniciar a campanha, antes mesmo do jogo renderizar com sucesso qualquer coisa, que frases pipocam na tela do meu computador. Sou alertado para me prevenir de maus olhados, que alguém em algum lugar com jeito de importante tem uma rádio e que, antes da tomada de poder na região de Kyrat, pano de fundo de Far Cry 4, pessoas se reuniam para realizar rituais na frente de estátuas gigantes. É só por causa da barrinha de loading se preeenchendo e uma sentença com algum conselho chinfrim que me lembro estar em uma tela de carregamento. Rapaz, se Far Cry 4 não é um joguinho cheio de mistérios, huh?

A longa jornada

Só que, entre aspas. O sangue de Far Cry 3 ainda corre fundo nas veias desta sequência que, em quase todos os aspectos é uma versão aprimorada de seu antecessor. Mas é em termos de história que ambos são bastante diferentes. Sim, ainda é a trama de um jovem viajante metido em um denso conflito civil, mas desta vez tudo parece mais pessoal: diferente do playboy Jason Brody, Ajay Ghale tem vínculos sanguíneos com os atores da guerra e com a dilacerada comunidade de Kyrat, no alto dos Himalaias. É um local consumido por fogo de metralhadora e por um conflito de ideias muito real, onde Ghale vai para depositar as cinzas de sua mãe mas se descobre seguindo os passos de seu pai.

A abordagem mais pessoal do enredo também convida a exploração de temas novos: a luta entre sanidade e insanidade do 3 é trocada por um conto sobre crença, tanto espiritual quanto ideológica. Suas viagens pelos sopés das montanhas geladas são repletas de símbolos religiosos, o domínio do ditador Pagan Min não parece tão diferente de uma revolução cultural como a da China, seus parceiros do Caminho Dourada são dois líderes com visões bem diferentes do futuro e Ghale transita entre confrontos om grupos paramilitares e jornadas ao místico Shangri-La. Uma abordagem fantástica que, vale dizer, é uma das maiores - e mais lindas - surpresas do ano, mas envelhece um pouco rápido demais. 

O tom mais profundo ainda dá espaço para o humor típico da série, e é difícil não rir com as piadas metalinguísticas de Pagan Min - ele lembra o ridículo que é carregar carne crua nos bolsos, e se sente incomodado com todos estas velas acesas e quem se dá ao hercúleo trabalho de manté-las assim. É genial, e, muito embora possa parecer contraditório, ajuda a reforçar que nada é o que parece ser em Kyrat. Uma pena que o jogo parece ser o pior inimigo de seu enredo: toda vez que um personagem interessante aparece, ele é rapidamente empurrado para dar ao jogador a chance de explodir coisas ou fazer missões com um agente americano pra lá de clichê. Frustrante, especialmente se você considerar o INCRÍVEL trabalho de localização para o português.

Sim, esta ainda ? a trama de um jovem viajante metido em um denso conflito civil, mas desta vez tudo parece mais pessoal.

Erguendo montanhas

Far Cry 4 segue os passos de seu antecessor, e nada deixa isso mais claro que as dinâmicas de jogo. Cace para aprimorar seu equipamente, desative torres para abrir áreas no mapa e ganhar armas, destrua acampamentos inimigos para fortalecer a presença de seus aliados por Kyrat, e procure todo tipo de tesouro para garantir fundos para todos aqueles preciosos silenciadores. No interim, corridas, missões especiais de caçador e assassinatos cumprem papel de atividades secundárias, agora fortalecidas pela presença de eventos emergentes no estilo Red Dead Redemption.

Em jogabilidade, a sequência mantém aquele je ne sais quoi de Far Cry 3, a magia que fica em algum lugar entre o ambiente de jogo hostil e imprevisível na medida exata e a sensação de estar sempre na pele do protagonista sem nunca precisar sacrificar uma noção de espaço ampla e clara e mobilidade ágil (sério, que inventou que o protagonista possa deslizar por uma encosta ao invés de dar com a cara no chão merece um prêmio!).

As pequenas revoluções de Kyrat geralmente aprimoram limitações da série: carne crua é um novo item, e jogado perto de inimigos ou em um acampamento, chama a atenção de algum fera próxima, dando maior controle sobre como usar a natureza a seu favor; Ghale pode atirar dentro de veículos, e missões de comboio diversas ajudam a fortalecer a nova mecânica. O controle de Postos avançados, mesmo quando dominados, pode ser reprisado (inclusive com um sistema de High Score). Além disso, um novo tipo de adversário meio sobrenatural, capaz de sumir de vista e controlar animais, te força a buscar novas estratégias. Os únicos dois elementos estranhos são o fato de que a área norte do mapa só é aberta depois de algo em torno de 2/3 da campanha e o fácil acesso a itens facilitadores (peguei o wingsuit em questão de três horas e o mini-helicóptero torna o jogo meio bobo às vezes).

Revolu??o a dois

Um dos elementos principais de Far Cry 4 é como ele repensa o multiplayer da série, seja cooperativo ou competitivo. É um esforço que acerta aqui, erra acolá. Far Cry 4, para início de conversa, faz co-op de forma muito competente. Um segundo jogador pode entrar na pele de Hurk quando quiser (o jogo, inclusive, amarra isso à narrativa geral do game de maneira um bocado adorável) e te ajudar a vencer desafios, caso o host da partida opte por jogar online. Daí, os participantes partilham pontos de destino e têm acesso a mensagens básicas para ajudar na comunicação, assim como acesso ao arsenla completo de cada um em postos avançados.

É um salto e tanto se considerado o modo cooperativo anêmico e distante da campanha principal, mas carrega consigo alguns problemas: em nossos testes da versão de PC, achar pessoas para dividir partidas foi uma experiência demorada mesmo em picos de tráfego, e o jogo sofria de um ou outro bug (como o display das suas armas aparecerem sem os acessórios acoplados). Além disso, há pouco incentivo para viajar de dois em Kyrat fora a chance de ajudar um amigo. É um pouco chato não poder trazer nada de uma partida alheia para o seu jogo.

Ainda assim é um baita adendo para a experiência como um todo. Uma pena que o mesmo não possa ser dito sobre a modalidade competitiva: há boas ideias - o multiplayer é assimétrico, com cada lado do conflito trazendo suas próprias armas e dinâmicas - mas tudo ocorre em mapas que parecem infinitos para um mero confronto cinco contra cinco, e durante conflitos que são tão perigosamente balanceados que parace que, uma hora ou outra, a coisa toda vai para os ares.

Por exemplo, o lado de Pagan Min é o único que pode usar animais para atacar, o que faz sentido no papel: em qualquer um dos parcos dois modos de jogo, os soldados do ditador estão sempre no ataque, e os adversários do Caminho Dourado, na defesa, então é sensato que o jogo crie algo para forçar o time protetor a, bem, ficar na retranca, e não sair por aí passeando na mata. Mas nada no resto do design auxilia essa ideia: assim como o time atacante, os defensores também têm que andar um bom pedaço do mapa até chegar na base, e o puro escopo do mapa dá aos asseclas de Pagan Min - armados de invisibilidade, vale salientar - ângulos de ataque o bastante para ferrar com o adversário caso ele se mantenha em uma só área.

H? boas ideias - o multiplayer ? assim?trico, com cada lado do conflito trazendo suas pr?prias armas e din?micas - mas tudo ocorre em mapas que parecem infinitos para um mero confronto cinco contra cinco.

Veredicto

É, Far Cry 4 ainda segue a cartilha do game anterior, e sim, parece parte da já velha estratégia da Ubisoft de trabalhar em cima de receitas bem definidinhas. Mas este é o tipo de coisa que fala mais a respeito de modelo de negócios do que sobre o produto em si, e, no frigir dos ovos, este novo Far Cry ainda é um jogo muito divertido, instigante e, em certos momentos, profundamente inspirador. Nesta viagem por Kyrat, Shnagri-La e ao topo congelado dos Himalaias, houve um trabalho criativo em pensar o que realmente a série significa: um jogo de riscos por vezes intransponíveis, um mundo dominado por forças secretas e um personagem que está de tal forma sob seu controle que faz toda a jogabilidade parecer truque de mágica. Se você procura um bom multiplayer, porém, pode ficar frustrado com o claro passo atrás que o time deu com o competitivo, então eis um ponto digno de nota. De resto, é de volta à natureza selvagem, e com um baita de um estilo, vale dizer!

*Não deixe de ler nossa política de review

8
PONTOS FORTES
  • Excelente senso de humor
  • Jogabilidade afiad?ssima
  • O modo co-op ? simples, mas libertador
  • Localiza??o nacional ? incr?vel
PONTOS FRACOS
  • O competitivo parece um passo atr?s de Far Cry 3
  • A barreira que a campanha ergue no mapa ? desnecess?ria
  • H? um ou outro facilitador estranho