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Forza Horizon 2: Joyride
Por Leonardo Teixeira às 14:45h - 28/11/14

Introdução

Videogames podem ser uma forma de escapismo, uma fuga da realidade, uma janela para um mundo de faz de conta em que você pode se expressar de uma maneira que você não poderia de outra forma - seja voando, atirando armas ou, sei lá, sendo uma pétala! E é engraçado que, entre tantos bons jogos independentes e inteligentemente artísticos este ano, foi justamente um jogo comercial de corrida que mais me fez lembrar deste aspecto dos videogames.

Forza Horizon 2, o novo game arcade de corrida desenvolvido pela Playground Games em parceria com a Microsoft Studios, é  o segundo game de uma série que sempre pareceu mais preocupada em abordar o motorsport como um estilo de vida, como uma arte, do que como um desafio em si. Em outras palavras, foi o game de carro menos interessado em seu próprio gênero que já joguei, algo que é em iguais partes, mágico e problemático.

 

Malas feitas

Em Forza Horizon 2, o jogador é novamente convidado a participar de uma espécie de Loolapalooza motorizado. Trata-se do Festival Horizon, uma série de campeonatos e eventos cheia de estilo e distante da simulação do esporte que, desta vez, é ambientada em uma porção digital da França e da Itália - como no primeiro Horizon, é um mundo aberto para exploração. Tudo ocorre através de belas paisagens e ao som de rádios fictícias que não só tocam a melhor trilha sonora licenciada dos videogames deste Tony Hawk's Pro Skater, como também são apresentadas por um bom trabalho de dublagem em português - exagerado aqui e ali, mas de uma qualidade técnica inegável.

Há dois novos elementos este ano. O primeiro é um enfoque em corridas off-road, que, diga-se de passagem, são um verdadeiro espetáculo. Rasgar vinhedos, detonar campos de flores e desviar de velhas igrejas em ruínas são destaques destes traçados mais malucos, que também são uma exceção bem-vinda entre o mar de asfalto, cujos trajetos podem ser um tanto desinteressantes. A segunda novidade são um punhado de eventos que parecem ter sido tirado dos mais pomposos episódios de Top Gear: logo no fim do primeiro campeonato, por exemplo, é preciso testar a potência de uma Ferrari 360 CS correndo contra uma trupe de aviões de manobra. Uma pena que não existam muitas destas tarefas no decorrer do Festival, e que logo logo elas reciclem umas as ideias das outras. 

Como em Forza Motorsport 5, toda corrida é povoada pelos Drivatars, carros controlados por inteligências artificiais que, através da coleta de dados sobre hábitos de jogo na nuvem, são capaz de imitar o comportamento de jogadores de verdade. Como no simulador da Turn 10, a adição deles cria corridas mais variadas e imprevísiveis - por sinal, não esqueça de colocar o jogo no Difícil assim que começar, tudo fica mais interessante. 

Falando sobre o maior dilema de Horizon 2

Mas meu desconforto pessoal com a porção single-player do jogo tem raiz em algo chamado Estratégia Dominante. Veja bem: todo jogo competitivo propõe um prêmio, uma série de possíveis soluções a um dado problema e outros jogadores - neste caso, os Drivatars. Uma estratégia dominante surge nesta mistura quando uma certa ação no game se prova eficiente não importa o que os outros participantes da partida decidam fazer. É um elemento não necessariamente indesejável em game design - usado moderadamente pode até servir como um meio de empoderar o jogador - mas Forza Horizon 2 derrapa nisso.

O motivo está nos Rewinds, já velhos conhecidos do gênero. Em Horizon 2, um clique do botão Y "rebobina a fita" e permite que você corrija um erro de percurso sem qualquer punição notável e quantas vezes você quiser. Já que o recurso é infinito, faz da conquista do traçado perfeito apenas uma questão de tempo e é bem mais prático do que recomeçar a prova, o Rewind se torna uma estratégia dominante de forma tão rápida que é muito difícil se desvencilhar dele (ainda mais quando o jogo fica empurrando ele toda vez que você comete uma gafe em corrida).

Posso parecer um jogador hardcore falando, mas o problema com a Estratégia Dominante não tem a ver só com dificuldade. Tem a ver com um jogo que força uma rotina sobre o jogador. Some isso ao fato de existirem apenas seis rotas possíveis cujas 11 pistas invariavlemente se repetem no decorrer dos 15 campeonatos do modo principal, e é de se imaginar que jogadores possam se sentir entediados em alguns momentos. É possível mexer nos Rewinds no menu Dificuldade, mas só dá para ligá-los ou desligá-los, o que é uma pena: GRID: Autosport já provou como colocar um limite de rebobinadas por prova ajuda até mesmo a apimentar corridas, adicionando uma camada tática interessantíssima.

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Multiplayer: sonho de liberdade

Ainda bem que a Playground Games soube encorajar o jogador a sair do caminho principal e experimentar outras coisas. Como o multiplayer, por exemplo! E já que estamos falando sobre ele, preciso dizer que meus momentos favoritos foram justamente dividindo o mundo do game com outros jogadores. Não só porque há um maior clima de competitividade e não dá para usar os Rewinds, mas também porque há um excelente trabalho em como construir e empacotar a experiência multijogador.

Olha o modo Pegar a Estrada Online, por exemplo. Ele funciona como uma versão condensada de um campeonato single-player - 4 eventos mais breves e um prêmio em experiência e dinheiro no final - mas com elementos significativos. Primeiro, tem um conjunto de modalidades únicas para o multiplayer, como o Você é o Rei, uma espécie de pique-esconde em uma arena fechada e improvisado sobre quatro rodas. O segundo elemento legal é que depois de cada evento, os jogadores precisam correr pelo mundo aberto até o grid de largada da outra etapa, e o jogo te permite criar o caminho que bem entender. É uma liberdade incrível, e, junto com amigos, faz o jogo virar a Mais Bela Tela de Chat do Mundo.

Além deste modo há a chance de realizar um passeio mais livre pelo mundo online, embora este seja mais funcional com amigos, ou pelo menos um grupo com quem você possa planejar e coordenar atividades. A vantagem é que, hey, isso é fácil de se arranjar! O jogo tem um sistema de clubes, em que você pode criar ou participar de um deles. Estas agremições fiuncionam até melhor do que em Driveclub: você pode ter centenas de colegas, para início de conversa, e juntos vocês podem evoluir o clube e escalar o ranking mundial. Toda a interação online funciona com o mínimo de espera (e mesmo quando o sistema procura partidas, ele nunca te tira do jogo), embora confesse que não tivemos a experiência mais sólida em termos de latência.

Questões técnicas a parte, a Playground Games foi feliz não apenas em fazer do multiplayer uma inteligentíssima arena, mas também em transformá-la em um espaço de interação e expressão muito completo. E sem lugar para jogadores agressivos, vale lembrar: seu sucesso no multiplayer é dependente apenas da experiência, ganha através de boa pilotagem e o mínimo possível de colisões.

Outras jornadas

De novo, é importante reforçar como Forza Horizon 2 te convida para os diversos passatempos do jogo. Você pode evoluir sim, o que melhora seu ranking e o de seu Drivatar, mas esse elemento de RPG nunca limita o jogador a fazer qualquer coisa. Quer comprar um carro novo? É só juntar uma grana, algo que você pode fazer fora da campanha, jogando multiplayer, enfrentando Drivatars ou simplesmente esperando seu clone in-game participar ele mesmo de corridas. Quer cruzar toda a região de Horizon assim que ligar o jogo? Ora, vá em frente, não há barreiras artificiais te forçando a explorar apenas um pedacinho por vez.

O que acontece quando você evolui é que você ganha um ponto de habilidade para gastar em perks (que geralmente servem para ampliar ganho de XP e nunca parecem obrigatórios de fato) e, vez ou outra, acesso a uma espécie de roleta em que é possível ganhar pacotões de dinheiro dependendo de sua sorte. É tudo muito relax, cara! E se você cansou de correr por aí, é possível explorar o mapa atrás de placas para quebrar e carros exóticos escondidos, ou mesmo transformar sua partida em um tipo de Pokémon Snap com carros: há um desafio envolvendo fotografar todos os mais de 200 modelos do game. 

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Veredicto

Forza Horizon 2 é sobre prazer puro. É como uma pilha de recheios, sem os biscoitos para acompanhar. É como ouvir "Spanish Bombs" do The Clash, mas só o pedacinho em que Joe Strummer canta "Ó mi corazón!" embalado pela alegre guitarra de Mick Jones. Ele é, em outras palavras, quase pornográfico em seu design, e se o objetivo da Playground Games foi o de dar uma massagem cerebral ao jogador a todo o momento de seu game, raios, que problema há nisso?! Ainda mais quando tudo no audiovisual transpira extrema qualidade.

Mas eu separei um bloco inteiro para críticas, e não foi à toa: é preciso ponderar o que você quer em seu jogo de corrida antes de comprar Horizon 2. A oferta infinita de rebobinadas traz ao single-player uma sensação de rotina, e tira bastante o peso dos designs de pista já que você não precisa necessariamente dominá-las para vencer. A simples opção dada ao jogador de tirar os Rewinds do game, por outro lado, elimina o que poderia ser uma boa sacada tática se a desenvolvedora decidisse trabalhar de forma mais criativa aqui. Não é um jogo para fãs de simulação, mas há algo especial em um título que me faz tão interessado em correr quanto em perseguir pássaros em revoada ou estacionar para ver o movimento em um bistrô à beira de estrada.

Se você já comprou ou planeja comprá-lo, aqui vai uma dica do Selecter: deixe seus rivais se engalfinhando em qualquer canto, ligue a rádio do game em uma música que você jamais ouviria e veja até onde a estrada mais próxima vai dar, sem nenhuma preocupação na cabeça. Boa viagem!

7 .5
PONTOS FORTES
  • Visuais incr?veis
  • Trilha sonora inacredit?vel
  • Boa variedade de ve?culos
PONTOS FRACOS
  • A dificuldade transforma o jogo em rotina
  • As pistas, fora off-road, n?o s?o t?o interessantes