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GRID: Autosport: poderes e responsabilidades
Por Leonardo Teixeira às 13:08h - 30/09/14

Introdução

Ken Block é, oficialmente, a Pessoa que Você Quer Ser Quando Crescer. O piloto e sua equipe técnica, não felizes em simplesmente sair por aí vencendo lama e curvas traiçoeiras em rallys, transformaram um Ford Fiesta 2011 em um monstro de impraticidade e cavalos a vapor, usado para realizar manobras milimetricamente calculadas que pareceriam desafiadoras o bastante a pé, quanto mais dentro de um chassi de metal sobre rodas. Assistí-lo em ação é hipnótico. 

Não é a toa que a Codemasters apostou por um tempo em Block como uma espécie de espírito por trás de suas criações (de DiRT e GRID), mais focadas na cultura alternativa do motorsport e no espetáculo. Em comparação, Autosport, o lançamento da empresa para este ano ao lado de F1 2014, parece mais com seu parceiro de calendário: longe do tom adolescente, Autosport é uma abordagem mais pé no chão. É menos sobre ser maneiro e mais sobre dirigir. Isso funciona na prática? Saiba nossas opiniões abaixo.

L? fora a vida n?o espera ningu?m

O time da Codemasters parece acreditar que a primeira impressão é a que fica: seus primeiros minutos com Autosport (diferente do passeio em Silverstone de Gran Turismo 5 ou do desafio pitoresco de correr por Praga em Forza Motorsport 5) são em uma violenta e acirrada corrida num circuito fechado no qual você é jogado sem qualquer cerimônia. Não é fácil: é preciso lutar com unhas e dentes para conquistar uma ou duas ultrapassagens. A dificuldade padrão (a "Normal") já se prova bem diferente da de outros simuladores logo na largada: seus oponentes são formidáveis da primeira à última posição, e dirigir seu veículo com muita agressividade e pouca consideração pode rapidamente significar problemas de direção e perda de potência.

A corrida também é o primeiro encontro do jogador com o sistema de direção renovado de Autosport. O esquema é bem diferente do anterior, em que um simples clique do freio era o bastante para mandar um carro em uma curva fechada e facilmente controlável. É preciso bom uso da frenagem para não ir direto em um banco de areia e, embora não haja o cuidado preciso em emular transição de peso e força G - como em Gran Turismo 5 -, Autosport faz um excelente trabalho em te forçar a saber explorar os limites de seu carro sem tranformá-lo em lata velha. Num geral, é como estar de volta aos bons tempos de TOCA Racing. A inteligência artificial mais agressiva - que não raro acaba sambando para fora da pista em acidentes meio impressionantes - ajuda a manter um tom de constante desafio e tensão.

Logo depois deste banho de água gelada, o jogo se abre: há cinco opções de carreira distintas, cada uma com sua série de desafios e seleção de máquinas próprias. Street e Tuner são os que mais lembram GRID 2: são corridas de rua cheias de pompa, confete e avenidas amplas, e acabam sendo um bom primeiro passo para jogadores. Touring é porrada pura: 18 competidores se juntam em circuitos fechados em corridas de duas etapas - e há ainda um desafio interessante, já que o jogo inverte sua posição no grid baseado na sua colocação no fim da primeira etapa, exigindo que o jogador se mantenha na batalha. Open Wheel te dá o controle de bólidos que curvam como uma dançarina e são surpreendentemente frágeis, e Endurance são provas de resistência de até 40 minutos que te dão uma meta de quilometragem para vencer.

Touring ? porrada pura: 18 competidores se juntam em circuitos fechados em acirradas corridas de duas etapas.

Atr?s de oportunidades

O aumento na dificuldade e agressividade de seus adversários e o novo modelo de direção acompanham outro elemento, interessante justamente por parecer congelado no tempo: a habilidade de rebobinar a corrida e refazer curvas ou evitar colisões, que praticamente não foi revisada entre esta edição e GRID 2. Pode não parecer, mas isso vem para o bem: tanto a duração quanto a quantidade de uso destas rebobinadas se mantiveram exatamente as mesmas do jogo anterior. Isto, colocado em prática nos ambientes mais hostis de Autosport, as transforma mais em estratégia do que em simples muleta.

No decorrer de minhas corridas não foi raro esgotar os Rewinds, como também foram várias as vezes em que deixei uma curva mal contornada passar apenas porque eu realmente precisaria garantir minha posição por mais uma volta. Estas são duas impressões que nunca tive enquanto lutava por posições em GRID 2,  e são bem vindas como um novo ângulo de um sistema que pode não agradar quem já joga simuladores por um tempo.

É uma abordagem muito prática, que mostra o tino sensível do time: ao mesmo tempo que estas rebobinadas garantem que o jogador fique mais tempo sem ser obrigado a reiniciar a corrida, há ainda uma clara chance de fracasso que de maneira alguma é remediada pelos "superpoderes temporais" do piloto.

Ao mesmo tempo que as rebobinadas garantem que o jogador fique mais tempo sem ter que reiniciar, h? ainda uma clara chance de fracasso.

Se preocupe com as apar?ncias...

Há ainda outra novidade: o jogador agora tem um companheiro de time, que pode adotar cinco atitudes diferentes, ajustáveis com cliques dos botões superiores. É como jogar o B-Spec de Gran Turismo no meio de uma corrida, mas com algumas diferenças: cada time e modalidade tem um piloto específico, e é possível ter acesso a um pequeno perfil que indica com que tipo de atitude ele se dá melhor (seja a mais calculada ou a agressiva). Tê-lo na pista traz outra camada de desafio (ele pode te dar uns altos abraços de afogado!) e até humor: pude obrigá-lo, por exemplo, a me deixar ultrapassá-lo em certo ponto, mas experimentei ligar a atitude violenta, e logo ele me tirou do traçado como um animal faminto, transformando nosso esforço conjunto em buscar a pole position em um desastre explosivo e estúpido. Foi adorável.

O piloto extra é um dos poucos demonstrativos de personalidade em Autosport. Não há uma carreira com uma história definida, nem cenas de corte ou alguma narração. Por sinal, eu acho que nunca ouvi uma voz humana saindo do jogo. O frio mundo das máquinas é aliviado pela presença de alguns rivais e pelos desafios que garantem experiência ao piloto digital (que pode ser usada para abrir atrações especiais). Você pode escolher entre patrocinadores, que oferecem ganho de EXP caso você chegue em uma dada posição ou ultrapasse algum outro time. O jogo sabe segurar expectativa, já que demora para que a exigência de conquistar os três primeiros lugares pipoque. Há ainda desafios menores, mas estes, mais matemáticos, parecem servir a nenhum propósito em particular.

GRID: Autosport também não é o mais belo modelo do ano. Pelo menos nossa cópia do jogo para PlayStation 3 foi assombrada por visuais lavados e screen tearing - a impressão é mesmo que o trabalho sobre a ferramenta de criação Ego Engine deu melhor resultado em GRID 2 do que neste jogo. A enorme presença de pistas fechadas colabora também para um game de gosto mais genérico. Há agora uma câmera dentro do cockpit, o que é ótimo e ajuda na imersão, mas um efeito desfocado, que serve para esconder os itens pouco detalhados do painel, pode desanimar.

... e com as companhias

Para um jogo tão focado em correr em duplas, a impressão mais marcante é justamente que é impossível fazer isso com um amigo, seja online, seja através de partidas locais. A opção para quem decidir dividir o sofá e os controles com amigos é similar ao do modo em rede: escolha uma classe e um evento e dispute uns com os outros pela posição. Não há maneira de se dividir em times, muito menos de jogar o modo principal cooperativamente com alguém.

Já para partidas online, Autosport se abre um pouco mais. Diferente do modo carreira, você pode comprar carros e customizá-los através de um menu que - admiravelmente - está 100% aberto para o jogador desde a primeira corrida. Não é preciso ter experiência em pistas e vitórias debaixo do braço para habilitar um mero adesivo maneiro ou coisa do gênero, o que ganha um punhado de entrelinhas douradas conosco. Por outro lado, embora seja possível selecionar e adquirir veículos, eles ficam tão fundo em menus, divididos em subcategorias e classes, que o simples gesto de comprar um Ford é uma procissão monótona.

Há de lembrar também que, durante nossos testes, os servidores do jogo pareceram um tanto esvaziados, com esperas de 15 minutos para juntar três ou quatro corredores em um mesmo evento. Toda a interface não ajuda, e não há meio intuitivo de procurar uma partida em andamento ou mesmo pedir para ser inserido em uma. Tudo o que pude fazer durante meus testes foi sediar salas vazias.

N?o h? maneira de se dividir em times, muito menos de jogar o modo principal cooperativamente com algu?m.

Veredicto

Se OutRun e Burnout (ou até mesmo Gran Turismo e Forza) tentam transformar homens e mulheres em meninos e meninas novamente, através do uso de belas máquinas, ousados jogos de câmera e céus azulados perfeitinhos, Autosport é como sentar detrás do volante da vida adulta. É um jogo de corrida sobre se responsabilizar não só por sua performance, mas a de seu time. É um game de automobilismo sem uma garagem de fato, em que nada do que você faz de coloca mais perto ou mais longe de pilotar uma McLaren P1 (que, salvo engano, nem aparece nesse jogo). Tudo ainda é costurado por uma interface seca e direta, que destaca como toda a trajetória construída em uma das cinco especialidades do jogo não serve para nada quando você quiser tentar alguma outra.

Mas não tem como negar que esse jeito mais durão faz de GRID: Autosport um game muito próprio. A conclusão, resumida, fica assim: se tudo o que você gosta de fazer é testar seus próprios limites atrás de um volante, Autosport jamais arreda o pé, e te dá um bom sistema de direção cheio de desafios e oponentes muito capazes.

*Não deixe de ler nossa política de review

8 .5
PONTOS FORTES
  • Sistema de dire??o desafiador
  • Oponentes capazes de te pressionar
  • Boa variedade
PONTOS FRACOS
  • Menus s?o confusos, principalmente online