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Como foi confrontar um dos melhores cyber-atletas brasileiros?
Por Paulo Freire às 17:20h - 23/10/14

Introdução

Para todos aqueles que gostam e acompanham e-Sports, um dos principais elementos motivacionais é o aprendizado. É aprender e melhorar nossas próprias performances com as atuações de cyber-atletas que presenciamos em campeonatos ou streams. Apesar de já ter acompanhado diversas competições na minha curta carreira de jornalista de games, o Player One, torneio de 1x1 organizado pela Red Bull no último final de semana (18), realmente me ajudou como um amante de League of Legends.

A missão enviada a mim pelo editor-chefe do Selecter tinha sido mais desafiadora do que qualquer outra já atribuída: eu iria acompanhar o evento e, no final, chamaria o grande Felipe "brTT" Gonçalves para uma partida um contra um. Inicialmente eu não soube como reagir. Por que eu iria me colocar nesta situação e passar vergonha em uma partida que eu sabia não ter chances de ganhar? Após alguns segundos de consideração, cheguei a seguinte conclusão: Por que não? Afinal, eu não tenho nada a perder, a não ser três vergonhosas partidas.

PRE-PA-RA

Sempre aprendi muito com as atuações dos profissionais de League of Legends. É bem capaz que eu tenha mais tempo de Twitch e YouTube, em canais relacionados ao game, do que horas em Summoner's Rift. Se eu realmente queria ter alguma chance eu precisava fazer algo no estilo Sylvester Stallone em Rocky IV (1985), ao se preparar para a luta contra o homem de ferro russo, Drago, interpretado pelo ator Dolph Lundgren. Subindo e descendo as escadas que levam ao inibidor, batendo em muita carne de lobo pela jungle e na dieta de Elixir da Fortitude. Mas infelizmente, a falta de preparo me fez sentir como se eu fosse Apollo, o Doutrinador, caminhando para enfrentar o monstro comunista (para quem não viu o filme, o sujeito apanha até morrer. Não é bonito).

Agora, como treinar para este confronto? Não tenho técnico, não tenho manager e não costumo dividir partidas com jogadores profissionais. Tive que ficar com apenas as opiniões de meus amigos de liga ouro, pratinha ou "bronzódia". Apesar de ter faltado muito treino prático, conversas sobre o que usar e como agir me ajudaram a ter uma ideia do que fazer quando a hora chegasse. De todo esse meu preparo mental a única conclusão que cheguei foi a de que nunca iria ganhar no farm. Minha única opção era encontrar o melhor campeão capaz de conseguir um all-in (jogada tudo ou nada, vida ou morte), na busca da remota chance de vitória.

Se eu realmente queria ter alguma chance eu precisava fazer algo no estilo Sylvester Stallone em Rocky IV.

Rocky IV (1985)

Uma an?lise al?m do LoL

Mas nada mais me restava. Eu tive que ficar no campo da teoria e análise. E minha última oportunidade foi acompanhar o desempenho de diversos nomes do cenário competitivo brasileiro durante o Player One. Em mais de dez horas de transmissão não pude somente aprender com as atuações que assisti. Mas a minha presença nos bastidores, junto aos atletas, me fez enxergar algo que muitas vezes esquecemos. Colocamos os profissionais em pedestais, achando que eles acordam, comem e jogam o seu LoLzinho diariamente, mas na verdade eles levam uma vida como todos nós. A profissão deles é jogar, mas ela não é toda a vida destas pessoas.

Assim como você conversa sobre trabalho, sobre o que fazer para melhorar sua produtividade, pude presenciar o mesmo na agência da X5. "Mylon" e "brTT" conversando sobre o que deveria ter feito e o que fariam em seus próximos confrontos. O "MiT" fazendo suas brincadeiras, a mesma pessoa das streams, colocando seus colegas de trabalho em gargalhadas. Jogadores, técnicos, managers e donos das equipes combinando um churrasco para comemorar o aniversário de um dos atletas. Todos sabemos que eles são pessoas normais, como qualquer outra, mas presenciar a rotina destes cyber-atletas é outra coisa.

Depois de toda fase eliminatória e a espera da resolução na final entre seus dois companheiros de time, Felipe "brTT" ainda teve toda a disposição de me conhecer, cumprimentar e sentar mais uma vez para uma partida 1x1. É incrível a paciência de cyber-atletas com seus fãs e imprensa, pensei.

No caminho para o cenário onde o campeonato foi decidido,me lembrei de avisar ao Thiago, da Red Bull: "Não trouxe o meu equipamento. Tem como você me arranjar um teclado e mouse?", pedi. Ele sinalizou para eu usar este mesmo que já estava conectado ao PC. Identifiquei como sendo o equipamento do campeão do Player One, o top laner "Mylon". Não vou negar que fiquei com receio de usar as coisas de um jogador profissional, afinal é uma das ferramentas de trabalho, o tipo de coisa pela qual você pode muito bem desenvolver um certo apreço egoísta. Esperei o jogador terminar a entrevista que estava concedendo no momento e perguntei se poderia usar seu equipamento na partida contra o "brTT". "Claro! Mas você está usando as coisas do campeão, vê se ganha". Eu ri, e disse que a sorte estava do meu lado.

Felipe "brTT" ainda teve toda a disposi??o de me conhecer, cumprimentar e sentar mais uma vez para uma partida 1x1. ? incr?vel a paci?ncia de cyber-atletas com seus f?s e imprensa, pensei.

Paulo "Gauldoth" Freire vs. Felipe "brTT" Gon?alves

Haja coração! Este, inclusive, estava totalmente acelerado enquanto eu abria o jogo e ainda pensava em qual campeão escolher. Qual opção me daria mais segurança e oportunidades de vitória contra um jogador do calibre de "brTT"? Depois de muita consideração, lembrei das atuações do finalista do Player One, o mid laner Murilo "Takeshi" Alves, em sua Syndra. Com inúmeras possibilidades de AD Carries para meu adversário escolher, a última coisa que queria tentar era algo de curto alcance.

Quando a tela de loading finalmente apareceu, fiquei intrigado com a escolha dele: Cho'Gath. Óbvio que está longe de ser uma das melhores escolhas para este tipo de partida, mas logo me dei conta que ele jamais tentaria o máximo contra mim. Não por me desprezar, mas sim para dar uma chance, ou pelo menos um pouco de graça a ponto de ser algum tipo de desafio para ele. E realmente isso me deu confiança. Achei que era possível sair com a vitória.

Mas só na prática se vê a diferença entre um jogador casual de League of Legends e um profissional. Enquanto eu apenas me preocupava em não tomar a Ruptura, ele me acertava com o Grito Selvagem no limite do alcance, matando os minions ao mesmo tempo. Mas o dano não era tão preocupante inicialmente, pois nesta troca de gentilezas, a extensa hit box do Cho'Gath tornava fácil acertar as Esferas Negras da Syndra. Quando vi que sua vida se aproximava dos 50%, me empolguei em atingí-lo o suficiente para apenas finalizar com o ultimate no nível 6. De repente, eu percebi que estava sem mana. A incerteza bateu novamente, e foi com este erro crucial que ele tomou vantagem, conseguindo recuperar parte da minha vantagem com sua passiva.

Por volta dos níveis 4 ou 5 foi a vez dele tomar uma postura mais agressiva. A primeira e segunda Ruptura eu consegui desviar. Mas a terceira foi beneficiada com a mira de um dos melhores Atiradores do Brasil. Flash, Grito Selvagem, Incendiar. Com mais um ou dois ataques básicos foi o suficiente para ele conseguir o first blood. O susto com a agressão repentina e tudo acontecendo mais rápido que meus olhos poderiam notar não me permitiu um tempo normal de reação. Sem a Exaustão no momento correto e o erro engatilhado pela falta de mana acabou por consolidar minha derrota, apesar de um tiro tomado da minha torre ter feito ele morrer logo após garantir o primeiro abate. Não importa o placar ou o que você fez, uma derrota por muito ou pouco ainda é uma derrota.

E assim "brTT" seguiu para o churrasco na Keyd House. E como eu voltei para casa? Depois de um dia inteiro presenciando e analisando as performances e atitudes dos jogadores de nosso cenário, aliado com a cereja no bolo no final do dia trouxe uma melhora aparente em minhas performances contra os pratinhas de nosso Brasil.

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