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The Vanishing of Ethan Carter: suspense e narrativa
Por Rafael Romer às 14:28h - 07/10/14

Introdução

"Este jogo é uma experiência narrativa que não vai segurar sua mão" é a frase que dá as boas-vindas ao jogador ao universo de The Vanishing of Ethan Carter. A premissa é tão interessante quanto é provocante. Há um número reduzido de jogos que se propõem a desafiar gamers não só em sua habilidade, reflexos e agilidade para apertar botões, mas também na sua capacidade de caminhar sozinho pelo universo criado e vivenciar o enredo sem  ser mandado para um lado e para o outro por instruções pré-programadas.Mas passado o lançamento, na última quinta-feira (25), será que o título dos poloneses do estúdio independente The Astronauts entrega tudo que prometeu?

O vale indie polon?s

Classificado em algum lugar entre um game de aventura, crime, puzzle e terror, The Vanishing of Ethan Carter te coloca nos passos do investigador paranormal Paul Prospero, que busca solucionar o caso homônimo ao título: um pedido de ajuda do jovem Ethan Carter, seguido do seu desaparecimento no vilarejo de Red Creek Valley.

O destaque do game, no entanto, está menos na sua proposta ou gênero e mais na opção dos desenvolvedores de investirem pesado em visual exuberante aliado a uma experiência minimalista de jogabilidade. O título busca colocar o jogador dentro da história, tirando da frente tudo aquilo que poderia atrapalhar a imersão. É um terreno espinhoso para o primeiro título da equipe. No passado, já tivemos alguns ambiciosos projetos de jogos fortemente baseados em narrativa que, mesmo com vários méritos, falharam em atrair grande fluxo de jogadores, como é o caso de Dear Esther.

Mas os astronautas poloneses têm um ás na manga. O principal nome por trás do time e fundador da The Astronauts é o designer de games Adrian Chmielarz, criador do estúdio People Can Fly e responsável por títulos como Painkiller e Gears of Wars.

A ideia para The Vanishing, aliás, não é de hoje. O game é considerado o sucessor espiritual de um antigo projeto pessoal de Chmielarz, que cruzaria elementos de horror com uma esperiência digital, apelidado de Come Midnight. O título acabou abortado "por conveniência" pela publisher THQ, em 2006, mas agora volta na forma do título recém-lançado. E isso é perceptível no game. The Vanishing tem a cara de um projeto "autoral", com detalhes notáveis esculpidos pelo pequeno time de desenvolvedores.

O t?tulo busca colocar o jogador dentro da hist?ria, tirando da frente tudo aquilo que poderia atrapalhar a imers?o.

Olhe ao redor

Não há como negar: o primeiro impacto causado por The Vanishing of Ethan Carter é o visual. Os cenários construídos são deslumbrantes, e mostram muito bem o potencial de um projeto pensado para o PC e desenvolvido por um time pequeno com liberdade para trabalhar da forma como melhor entender.

A técnica utilizada pela criação dos modelos, por sinal, foi emprestada dos cinemas: trata-se da fotogrametria, que consiste na digitalização de centenas de fotos tiradas em objetos do mundo real para criar modelos tridimensionais da forma mais fiel possível. O resultado disso é que os objetos se comportam bem no mundo virtual e mantém caraterísticas de cor, sombreamento e profundidade bem realistas quando você olha por diferentes ângulos. E quando aliado à trilha sonora, cuidadosamente composta para acompanhar diferentes momentos e intensidades do game, o fotorrealimo torna as vistas de Red Creek de fato impressionantes.

Existem, sim, algumas texturas mais pixeladas em um lugar ou outro, é claro, mas na maior parte do tempo o que chama atenção é a qualidade dos modelos. Sem brincadeira, não é qualquer jogo que me faz passar 10 minutos olhando cada canto e acabamento de um trem virtual.

N?o h? como negar: o primeiro impacto causado por The Vanishing of Ethan Carter ? o visual.

M?os na massa

E esse nível de detalhamento é ainda mais nítido pelo fato de não haver quase nenhuma barreira entre o game e você. Como já escrevemos logo ali em cima, a interface de The Vanishing é minimalista, para não dizer inexistente. Nada de cursores, menus, minimapas ou seta apontando qual o próximo passo da aventura. Mas o mais legal é o uso inteligente do que sobra. Os comandos seguem o estilo tradicional de um jogo em primeira pessoa para PC, com movimentação pelo WASD, botões para correr e agachar (mas não pular), e a interação com os objetos, feita com o mouse. 

Os objetos ativos em cena não são destacados de qualquer forma do restante do cenário, e só aparecem como um item pertencente à trama quando você chega bem perto para interagir. Isso é essencial para criar o clima de investigação do jogo: você só vai saber se um item é importante ou não se prestar bastante atenção. É um esforço ativo de exploração.

E isso desemboca diretamente na jogabilidade. O seu objetivo principal na pele de Prospero é reunir elementos dispostos em diferentes cenas de crimes para reconstituir o que aconteceu no passado através dessas pistas. Só quando todas as pistas estão completas, o protagonista é capaz de criar uma "imagem" do que aconteceu com projeções fantasmagóricas dos evolvidos, descobrindo um pouco mais sobre o paradeiro de Ethan. Montar as cenas é mais próximo de um quebra-cabeça tradicional do que de uma investigação. Você não vai questionar suspeitos ou testemunhas, mas há algum esforço de detetive. Para algumas pistas, o caminho não é tão óbvio e você vai ter que usar de alguma dedução baseada no que você já viu ou está vendo antes de descobrir tudo.

Mas de forma geral, a narrativa de The Vanishing é bem linear, e mesmo sem "segurar sua mão", uma cena te conduz diretamente para a outra. Não há muito incentivo para explorar o que está fora do caminho dessa sequência - mas nós vamos voltar para esse tópico um pouco mais para frente. É uma experiência divertida, ainda que não desafiadora.

Tem algu?m a??

The Vanishing of Ethan Carter permite explorar livremente o espaço de Red Creek Valley, é verdade. Pero no mucho. Apesar de estar livre para andar por onde quiser e olhar para cada um dos detalhes construídos para o game, o jogador logo vai sentir que uma coisa essencial está fazendo falta: a motivação.

Aqui fica uma das principais falhas de The Vanishing. O microcosmo do Red Creek Valley é incrível e poderia oferecer muito mais ao jogador, mas não o faz. Passado o frenesi inicial de se investigar cada metro quadrado de terreno, o gamer perde a motivação de continuar explorando além da "linha condutora" da narrativa porque simplesmente faltam elementos que instiguem o interesse.

Se a proposta do game é imergir o jogador completamente naquele universo, livros com capas iguais, quadros repetidos nas paredes e as poucas informações sobre quem são aquelas pessoas, o que elas fazem ali e o que é aquele lugar, definitivamente não ajudam. Se houvesse mais elementos que contassem e mostrassem mais sobre a história daquele local, das construções degradadas e pessoas, o game poderia entregar uma imersão ainda maior. Só as texturas e vistas deslumbrantes não são motivo o suficiente para manter o interesse.

O microcosmo do Red Creek Valley ? incr?vel e poderia oferecer muito mais ao jogador, mas n?o o faz.

Veredicto

Agora, passados a ansiedade e expectativa da espera e terminado o game, a experiência criada pelo jovem mas já experiente estúdio polonês se mostra uma boa reunião de um design visual magnífico, uma narrativa envolvente e uma jogabilidade que foge do tradicional. Há alguns deslizes no caminho. Além da sensação de que o universo de Red Creek Valley poderia ter sido explorado para além do mostrado, alguns bugs na versão final também atrapalham um pouco. (Mais a imersão do que a jogabilidade, é verdade).

Mas o game é bem sucedido. Seja pela criação de uma atmosfera de suspense que engaja o jogador durante todo o decorrer da trama ou com a proposta de uma jogabilidade reduzida e baseada na narrativa, o título cumpre bem o que promete e entrega uma experiência original para o cenário de jogos de horror - cada vez mais abarrotado com novos títulos. O desaparecimento de Ethan Carter é, sim, um ótimo achado.

*Não deixe de ler nossa política de review

8 .5
PONTOS FORTES
  • Visual deslumbrante
  • Atmosfera imersiva de mist?rio
  • Jogabilidade inteligente e simples
PONTOS FRACOS
  • Universo criado ? pouco explorado
  • Poderia ser mais desafiador