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Transistor: voz e a??o
Por Rafael Romer às 10:44h - 16/06/14

Introdução

Quando a desenvolvedora norte-americana Supergiant Games lançou seu primeiro título - Bastion, em 2011 -, o time conquistou crítica e público. Com narrativa envolvente e visual encantador, o RPG de ação atraiu milhares de fãs e alcançou a marca de 2 milhões de cópias vendidas em três anos. Mas não é só número. Agora, com o lançamento do segundo título da empresa, Transistor, o jogo de 2011 mostra ter dado à pequena equipe de desenvolvedores algo bem mais valioso do que apenas reconhecimento e uma conta no azul: a confiança para ousar um pouco mais.

Hello World

Lançado no começo de maio, Transistor, em linhas gerais, até pode até ser considerado um sucessor espiritual de Bastion. O game reúne, sim, alguns dos diversos acertos da Supergiant com o primeiro game. A experimentação com como contar a história talvez seja o mais claro deles. O título também segue os mesmos passos de gênero do antecessor, e toma a forma de uma espécie de RPG e ação em tempo real, mas com atenção especial à estética.

Mas ainda assim, Transistor tem uma dinâmica singular. Ficar preso somente a comparações entre o game e seu irmão mais velho terminaria, fatalmente, em uma simplificação que não faz justiça ao título. Por isso, já prometo: você só lerá o nome "Bastion" mais duas vezes antes do final desse texto.

Transistor é um mergulho em um universo isométrico encantador, com uma ambientação que fica em algum lugar entre o cyberpunk, inspirações do extremo oriente e da arte déco dos anos 20.Digo um mergulho porque parte do encanto do título já vem logo no seu início. Não há nenhum menu ou tutorial burocrático para separar o jogador da experiência que o g ame propõe. Ao abrir o jogo, você é lançado diretamente para uma introdução que dará o tom inicial da trama, sem muitas explicações sobre o que está acontecendo a sua volta.

Você encarna Red, uma das mais amadas cantoras da cidade de Cloudbank, que perde a voz em um incidente na noite anterior ao início da história. Na sua frente, o corpo de um homem com a espada Transistor cravada no peito. Além de arma, a espada serve como comunicação com o falecido, aparentemente um conhecido da protagonista, mas não se sabe ao certo. Melhor assim: o impacto do mistério por trás do universo e história de Transistor é o elemento essencial para a trama.

Ficar preso somente a compara??es entre o game e seu irm?o mais velho terminaria, fatalmente, em uma simplifica??o que n?o faz justi?a ao t?tulo.

G?nero ? uma quest?o social

O impacto visual de Transistor pode ser o primeiro baque, mas, ainda assim, o jogo é um jogo. E, é claro, você vai querer bater em alguém com sua nova espada falante.

Alvos são o que não faltam na aventura de Red. Os inimigos, no caso, são apelidados de O Processo: um sem-número de robozinhos com diferentes formas e habilidades, sob controle de uma organização chamada Camerata. A motivação é incerta, mas o fato é que eles estão infestando a cidade e caçando a protagonista.

Como tudo na enevoada e perigosa Cloudbank, o gênero exato de Transistor é difícil de definir. O game reúne, sim, características de um RPG, mas elementos de ação, estratégia em tempo real e até toques de puzzle dão as caras. Durante as batalhas em formato de arena, o jogador deverá combinar uma série de habilidades, ou Functions(), em uma interface chamada de Turn(), que paraliza o tempo e permite que você "desenhe" suas ações antes de executá-las. Conforme acumula vitórias, Red adquire novas Functions() e upgrades.

E é aqui que Transistor mostra seu verdadeiro valor. De nada adiantaria uma ambientação magnífica se a jogabilidade deixasse a desejar na hora da ação. É no combate que os elementos da narrativa, trilha sonora e estética se combinam com a ação para tornar o título marcante. A função Turn() é a verdadeira alma por trás de Transistor. Em pouco tempo, você verá que a diferença entre derrotar ou não seu adversário pode ser uma sequência bem executada de habilidades que se complementam para causar dano em combos, desabilitar Processos ou até te retirar de uma situação complicada.

? no combate que os elementos da narrativa, trilha sonora e est?tica se combinam com a a??o para tornar o t?tulo marcante.

Arranjo rebuscado

É quase desnecessário dizer, mas este malabarismo se encaixa perfeitamente com o clima de improvisação do jogo. Além de uma função ativa, cada habilidade pode ser selecionada ainda como uma função passiva ou combinada com outra função para criar efeitos diversos. Além disso, quanto mais você usar suas funções de maneiras diferentes, mas "documentos" sobre os personagens da trama você irá liberar.

Aliás, também não há nível de dificuldade base, mas, com o tempo, você também irá liberar os chamados Limiters() - opções que fortalecem seus inimigos durante a batalha para oferecer mais desafio em troca de mais experiência. Mas vale lembrar: se sua barra de HP for reduzida a zero, uma de suas habilidades será desabilitada por um período considerável, o que te obrigará a readaptar sua estratégia de luta.

Tudo isso cria um ambiente um pouco complexo, é verdade. Principalmente no início do jogo, a sensação de confusão será a mais comum. Os menus exigem vários cliques para a arrumação de todas as habilidades na ordem desejada, e vários submenus atrapalham um pouco o acesso à descrição de cada um dos itens. Apesar disso, é possível colocar tudo em português - pontinho positivo aí.

Voltando para o campo de batalha, topamos com outra coisa que pode deixar alguns jogadores confusos. A visão isométrica e arte bem trabalhada de Transistor acabaram criando uma armadilha que pode incomodar em alguns momentos. Em meio a tantos pew pew pews e explosões durante as lutas, além dos blocos que compões as arenas, que vão entrar na sua frente toda hora, muitas vezes pode ser um tanto complicado visualizar o campo de batalha como um todo, mesmo no modo Turn(). Não há uma opção para girar a tela para diferentes ângulos, nem é possível deslizar o mouse para ver o que está acontecendo além de seu campo de visão. Ambas funções que seriam mais do que bem-vindas em uma jogabilidade que tem a estratégia como ponto principal das batalhas - pontinho negativo aí.

Além disso, a história linear também não oferece muito replay após encerrar o jogo. Ainda que seja possível criar até cinco saves diferentes e jogar novamente a aventura mantendo seu nível e habilidades desde o começo. Também não há muitos achievementes, coisas secretas, modo multiplayer ou mesmo suporte para mod.

Protagonismo compartilhado

Lembra do homem com uma espada espetada no peito do início deste review? Pois é, a voz dele será seu principal acompanhante. Meio NPC, meio narrador-personagem, ele ajuda a desvendar o mundo de Cloudbank. O narrador-personagem participa diretamente da ação do jogo e compartilha, de certa forma, o protagonismo de Red. É a relação entre os dois que vai dando significado ao universo de Transistor.

É aqui que fica uma das principais qualidades de Transistor. Um narrador-personagem caminhando lado-a-lado com o jogador, observando o mundo e fazendo descobertas junto com o gamer conforme ele avança na história é uma proposta pouco explorada. A experiência de trabalhar com esse tipo de narração é claramente fruto de uma confiança que os desenvolvedores herdaram com os bons resultados de seu título anterior.

E essa dinâmica é ótima. A sensação é de uma narração bem mais próxima do jogador, que colabora muito para a imersão na história. É como se a espada engajasse em uma conversa diretamente com você. E aqui vale ressaltar: o efeito é ainda maior na versão para PS4 do game, que permite que a narração saia diretamente do controle do console. Ainda assim, em certos momentos fica um feeling de fada do Link e alguns comentários mal posicionados do narrador-personagem acabam estragando um pouco o clima de determinadas partes da jogabilidade - principalmente em momentos nos quais a música desempenha um papel importante na trama.

? a rela??o entre os dois, hero?na e sua arma, que vai dando significado ao universo de Transistor.

Espet?culo

A música, aliás, merece um destaque por si só. A trilha sonora poderosa de Transistor viaja por entre o jazz e o blues e complementa a história de uma forma harmoniosa. São elementos tão importantes para o jogo que há até um botão para fazer Red parar toda a ação e somente acompanhar a canção de fundo do jogo murmurando. Outro botão, apelidado de “flourish”, faz Red jogar sua espada para o alto e dar um salto para pegá-la no ar - também sem função na jogabilidade, só estética. É preciso muita confiança no seu trabalho (e ousadia e alegria) para acrescentar esse tipo de elemento. Além disso, a quarta barreira está aí para ser quebrada.

A trilha sonora poderosa de Transistor viaja por entre o jazz e o blues e complementa a hist?ria de uma forma harmoniosa.

Veredicto

Toda a ambientação transforma Transistor em um misto de expressões artísticas. O game viaja entre a beleza estética das artes plásticas, o storytelling de livro, a harmonia musical de um álbum, a evolução de um filme e todos os elementos de ação, improvisação e desafios esperados de um game.

Saio de Transistor com a impressão de que, apesar de escorregadas, caminhamos para uma indústria de games cada vez melhor, na qual jogos podem ousar com novas formulas e oferecer algo além de belos gráficos e entretenimento por algumas horas. É inspirador ver que, ao invés de se acomodarem com sucesso e elogios, a equipe de Transistor importou as boas experiências de seu primeiro título, mas foi além e adicionou um pouco de inovação para arriscar em um novo modelo. Nesse sentido, sim, o game deve tudo ao que Bastion trouxe para a Supergiant Games. E se Bastion foi um bom começo para a Supergiant, Transistor é um passo na direção certa.

*Não deixe de ler nossa política de review

9
PONTOS FORTES
  • Ambienta??o musical e est?tica casam perfeitamente
  • Narra??o aproxima jogador da trama
  • Variedade de habilidades adapt?veis a diferentes tipos de jogador
PONTOS FRACOS
  • Menus e submenus complexos
  • Visualiza??o dif?cil durante batalhas