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Trials Fusion: cabe?a de agulha
Por Leonardo Teixeira às 11:25h - 01/05/14

Introdução

Desde seu início humilde, a série Trials é um pouco menos jogo e mais um objeto de obsessão. O game de motocross em pistas bidimensionais veio dos PCs para o Xbox 360 carregando esse mesmo clima de - se nos permite um pouco de rapto intelectual - "não dá para comer um só". Há sempre aquela necessidade de mais uma última partida quando você realmente tem que desligar o videogame, e isso ocorre porque o jogo é apinhado de desafios que parecem ao mesmo tempo impossíveis mas, oh! tão próximos! Trials Fusion, o mais recente título da série e seu primeiro salto geracional, chegou semana passada para múltiplas plataformas, mas não sem dispertar um receio: depois de um ponto, eu quase não queria mais jogar.

Sem pressa

Eu já vi muita gente ser introduzida a simuladores de corrida para saber de uma coisa: o amor que nossa espécie parece ter com o acelerador convida geralmente ao primeiro erro de quem saiu de um Mario Kart para tentar a sorte no assento de um Nissan GT-R em Gran Turismo ou Forza Motorsport: pneus cantam logo na primeira curva, zebras são invadidas e o terrível som de borracha contra areia e grama acompanha algum comentário frustrado e um controle deixado subitamente solitário. Trials Fusion convida à mesma gafe, mas as consequências são geralmente mais horríveis: exagere no acelerador e seu pobre piloto pode acabar esmagado sob a carenagem da moto ou lançado na direção de barris explosivos com um grito estridente. Não há remorso: Trials Fusion é um manifesto rebelde contra o botão de aceleração.

Fusion é um jogo de finesse, uma prova de raciocínio primeiro, de amor pela velocidade em longínquo segundo. Este ainda é um desafio de moderação entre freio, acelerador, posicionamento da motocicleta e inclinação do piloto, feito melhor por um sistema físico que garante pousos mais precisos, mas potencialmente mais catastróficos. No mais, você ainda controla um piloto com constituição de linguiça tentando balançar uma motocicleta por pistas sinuosas, todas escaladas íngremes, saltos estupidamente longos e efeitos sonoros que parecem ter saído de um filme faroeste bem mais ou menos. Em outras palavras, Fusion ainda é glorioso.

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Escalada dif?cil

Mas meu problema com o progresso de jogo tem momento e lugar: mais especificamente a antepenúltima área do modo principal. É quando o game tenta fazer seu máximo para te tirar da reta com alguns dos desafios mais complexos do jogo, acompanhados de um salto na curva de aprendizado que é da sutileza de um rinoceronte. Por si só, isso não é problemático - muito pelo contrário - mas o súbito pico de dificuldade é acompanhado por fases que, de repente, começam a não poder ser completadas com todas as motos no seu arsenal. Até lá, é de se acreditar que as diferenças de aceleração e controle das máquinas - algo que o jogo nunca se presta a dar importância - era interessante apenas para quem quer tirar alguns preciosos segundo de seu tempo final em pistas, mas, lá para o final, o jogo te motiva a usar uma só bike, veloz e rebelde, para vencer obstáculos inumanos.

Isso é pior primeiro porque, para um jogo que se diz tão imediato - você pode retornar instantaneamente ao checkpoint ou ao início da fase ao toque de um botão -, não ter a opção de mudar de motocicleta nem pelo menos no menu de pausa é um contraponto notável. Segundo: embora os menus do game estejam localizados em português, não há a opção de ligar legendas para entender melhor as manobras mais complexas do jogo, que são passadas em inglês por uma narradora e através de dicas visuais muito obtusas. Esses tutoriais são mais que essenciais depois desta área, e ficar sem entendê-los completamente pode causar frustração nos desafios mais precisos do game.

Sou um grande fã, entretanto, de como a RedLynx trabalha com as regras de jogo. Cada nível de dificuldade permite que jogadores interessados em uma medalha de ouro possam cometer mais e mais erros, livrando o jogo de restarts desnecessariamente numerosos (tombar uma vez nas dificuldades elevadas não é razão para desistir do seu traçado). Abrir novas fases não é tarefa fácil, e exige invariavelmente que você tenha a capacidade de ganhar ouro em um bom bocado das provas ou experimente as missões laterais do jogo - que introduzem objetivos variados que apimentam a ação e até mesmo minigames ridículos. Trials Fusion vai ficando mais desafiante conforme você progride, mas também gradativamente um pouco menos carrancudo.

N?o se engane: Trials Fusion ? um jogo de finesse, uma prova de racioc?nio primeiro, de amor pela velocidade em long?nquo segundo.

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Manobras: p?s nas nuvens, de cara com o ch?o

Na tentativa de se diferenciar de outros jogos da série, a RedLynx desenvolveu um sistema de manobras inédito, que funciona meio como um novo verniz para a experiência: durante qualquer salto, o jogador pode empurrar a alavanca direita para cima, baixo, ou para os lados para fazer o piloto assumir posições diferentes em cima da moto. Compensar empurrões e saber quando parar de se exibir como um moleque e planejar seu pouso trazem desafios interessantes. Infelizmente, eles ficam mais no papel do que na prática. 

O primeiro problema é implementação. As manobras são opcionais na maioria dos casos, o que é até boa ideia, mas como o progresso em cada fase é ditado por número de erros e tempo (quanto menores esses valores, melhor o resultado no final do percurso), não há qualquer motivação para se arriscar. Talvez poderia haver um sistema de score secundário, que pontuasse manobras arriscadas e trouxesse prêmios em experiência (que libera itens para moto e roupas), já que nem as três missões laterais de cada uma das fases aproveitam da novidade. Os únicos pontos da campanha (e até do jogo todo) em que esse extra conta são desafios de final de área que vão e vem sem muito sabor.

Outro problema é que executá-los também não é muito intuitivo. Em termos gerais, há sim quatro direções, mas elas mudam conforme o posicionamento da bike. Então se você quer fazer, digamos, a manobra mapeada na direita mas sua moto está inclinada para frente, você precisa compensar isso jogando a alavanca para a esquerda e para baixo. Em muitos momentos, a própria posição da bike muda a manobra feita, o que gera confusão e pode levar seu piloto a um terrível - e meio flutuante - desastre. Em alguns momentos, o jogo até demora a ler corretamente a manobra sendo feita, ou nem conta pontos para o salto.

As manobras s?o opcionais na maioria dos casos, o que ? at? boa ideia, mas como o progresso em cada fase ? ditado por n?mero de erros e tempo, n?o h? qualquer motiva??o para se arriscar.

Freestyle

Claro que o modo principal, e como a RedLynx desenha o progresso da modalidade para um jogador, é apenas parte da experiência. Como em qualquer Trials, conteúdo criado pelos jogadores é igualmente, ou até mais importante que a campanha. Isso acontece porque a combinação de uma comunidade apaixonada pelas mecânicas básicas de Trials com um sistema de edição complexo e atraente cria resultados fenomenais. É altamente recomendado explorar o conteúdo, mesmo que, claro, você esteja fadado a cair em alguns experimentos toscos aqui e ali - quem foi o espertinho que achou que empilhar uma pirâmide de carros era bom level design merece um puxão de orelha! A RedLynx inclusive foi esperta ao introduzir uma série de filtros de conteúdo: há seleções semanais, favoritos do time e da Ubisoft - embora este seja travado se você não tiver uma conta Uplay - e a opção de programar dois feeds personalizados a partir de nível de dificuldade, autor e tipo de desafios.

Se você for mais do tipo criador, o editor de mapas é completíssimo: você escolhe um ponto de início em um amplo cenário, seleciona e elenca peças diversas, define ângulos de câmera, decide que partes do cenário sofrerão efeitos de física e testa você mesmo sua criação em um toque de botão. O problema é que poderia haver um maior esforço em introduzir novos jogadores ao editor que fosse além de um "hey, copia essa URL no seu computador e veja o vídeo". Jogamos a versão next-gen para Xbox One, e ver uma solução tão imprática como essa foi de gelar o cérebro.

Outra limitação é que não há itens de versões anteriores, ou seja: o que você criar, vai ter que ser dentro das regras estéticas de Trials. Finalmente, vale também notar que experimentamos quedas estranhas em taxas de quadro no editor.

A combina??o de uma comunidade apaixonada pelas mec?nicas b?sicas de Trials com um sistema de edi??o complexo e atraente cria resultados fenomenais.

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Multiplayer

A RedLynx, até o momento da presente publicação, ainda não disponibilizou um modo multiplayer online, mas Fusion já vem com multijogador local como opção. Sacrifícios acontecem, e sendo um (feliz) residente de um país com uma infraestrutura de rede nem sempre muito confiável, acho difícil não respeitar a decisão da equipe, que se focou em trazer algo para reunir amigos ao redor do console.

Como em Evolution, o jogo dá suporte para quatro jogadores e apresenta pistas exclusivas para o modo, que contam com maior espaço para velocidade. Se comparamos a campanha de Fusion lá em cima a um jogo de quebra-cabeça, o seu multiplayer é uma versão endiabrada do velho Excitebike: o trajeto se divide em quatro pistas, e o maior desafio é saber pousar bem sem perder velocidade. O jogador tem a liberdade de selecionar números diversos de pistas por sessão, mas é um tanto inconveniente não ter a oportunidade de rearranjar o conjunto depois que você aperta o comando para confirmar. 

Como os anteriores, o jogo é perfeito para festas, mas ainda pode frustrar gente mais competitiva, uma vez que as regras ao redor do respawn - que acontece sempre que um dos jogadores cruza um checkpoint - não são exatamente muito firmes: perdi constantemente a primeira posição porque eu ativei o retorno do Felix enquanto eu estava no meio de um salto enquanto ele apareceu capaz de acelerar a moto com tudo em terra firme. No meu caso, tudo bem, perder para o seu chefe em jogos vez ou outra é parte de um ambiente saudável de trabalho. Mas pode ser um problema para você, leitor.

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Veredicto

Diferente da Limbo by Trials de Evolution, não há qualquer pista em Trials Fusion que exista e seja vendida para te fazer lembrar de outro jogo - embora uma dela tenha ares de Donkey Kong Country Returns. Num geral, isso me pareceu bom sinal: em sua primeira edição para os novos consoles, Trials Fusion é sua própria coisa, e saiu dos galpões escuros de HD dificultoso e confiante em iguais doses. Mas Fusion é um jogo sobre o futuro, e do futuro. A receita básica, velha de guerra, ainda funciona muito bem, é adoravelmente desmiolada e precisamente afinada, mas todo o novo sistema de manobras é mal encaixado, e parece servir para qualquer outro jogo que não seja no que ele está enfiado. A campanha, além disso, peca em dar algo realmente instigante ao jogador para contra-balancear o súbito pico de dificuldade, e há decisões inconvenientes que ferem um produto tão imediato quanto Trials. Vale ressaltar, porém, que a magia da série ainda está presente, e se você ainda está para mergulhar em um Trials, não se desanime: Fusion pode ser um ponto de partida tão brilhante quanto seus antecessores.

7 .5
PONTOS FORTES
  • ? Trials
  • Sistema de progresso inteligente
  • Efeitos sonoros instigantes
PONTOS FRACOS
  • Pico de dificuldade sem grandes recompensas
  • Sistema de manobras disfuncional
  • Menus poderiam ser mais permissivos
  • N?o h? um tutorial para o editor